sábado, 28 de novembro de 2009

Homem sem utopia é aquele que se conformou com a mediocridade histórica.

Pedro Demo

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A Vontade

A vontade é um chão gelado sob os pés
A vontade vai sem medo até bater com as dez
A vontade, quase um desmaio e disparador
A vontade é o prazer encostado na dor
A vontade é meu destino e senhor
A bênção
A vontade está no altar
Com respeito
A vontade está no altar
Viva ela
A vontade está no altar
Viva tudo
A vontade está no altar

Bruno Morais

terça-feira, 10 de novembro de 2009

The International (French original was 1871)

Arise, ye prisoners of starvation
Arise, ye wretched of the earth
For justice thunders condemnation
A better world’s in birth.
No more, tradition’s chains shall bind us
Arise ye slaves, no more in thrall
The earth shall rise on new foundations
We have been naught, we shall be all.
Chorus
: Tis the final conflict
Let all stand in their place
The International Party
Shall be the human race. :

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Esses meninos que partiram têm para mim, apesar de tudo alguma coisa de imponente, assim como o anjo rebelde Lúcifer tem certa grandiosidade. Talvez tenham feito alguma coisa errada, podemos adimitir que cometeram um erro mas, seja como for, fizeram alguma coisa, realizaram algo, ousaram dar um salto e é preciso coragem para isso. Nós que fomos aplicados, pacientes e ajuizados, não fizemos nada, não demos salto nehhum.

Hermann Hesse

Lamento


A nós foi dado um ser.
Somos apenas correnteza,
Fluímos de bom grado pelas formas:
Pelo dia e a noite, a gruta e a catedral.
Por elas penetramos, incitados
Pela sede de ser.

Assim nós vamos sem repouso,
Enchendo as formas, uma a uma,
Sem que nenhuma delas seja para nós
A pátria, a ventura ou a dor.
Estamos sempre a caminhar,
Somos sempre visitantes,
Não ouvimos o apelo do campo nem do arado,
Para nóós nao cresce o pão

Os desígnios de Deus sobre nós não sabemos,
Ele brinca conosco, barro em sua mão,
O barro que é mudo e tem plasticidade,
Que não sabe nem rir nem chorar:
Barro amassado, porém jamais queimado

Ah! Quem me dera transformar-me em dura pedra!
Permanecer enfim!
É o que todos nós aspiramos pela eternidade,
Mas nossa aspiração é apenas,
Eternamente um medroso tremor,
E não virá jamais a ser repouso em nossa via.

Herman Hesse, O Jogo das Contas de Vidro

terça-feira, 27 de outubro de 2009

No mundo há muitas armadilhas

No mundo há muitas armadilhas
e o que é armadilha pode ser refúgio
e o que é refúgio pode ser armadilha

Tua janela por exemplo
aberta para o céu
e uma estrela a te dizer que o homem é nada
ou a manhã espumando na praia
a bater antes de Cabral, antes de Tróia
(há quatro séculos Tomás Bequimão
tomou a cidade, criou uma milícia popular
e depois foi traído, preso, enforcado)

No mundo há muitas armadilhas
e muitas bocas a te dizer
que a vida é pouca
que a vida é louca
E por que não a Bomba? te perguntam.
Por que não a Bomba para acabar com tudo, já
que a vida é louca?

Contudo, olhas o teu filho, o bichinho
que não sabe
que afoito se entranha à vida e quer
a vida
e busca o sol, a bola, fascinado vê
o avião e indaga e indaga

A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela.
E não te mataste, essa é a verdade.

Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.
E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar
e agüentarás até o fim.

O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm
há os que têm tanto que sozinhos poderiam
alimentar a cidade
e os que não têm nem para o almoço de hoje

A estrela mente
o mar sofisma. De fato,
o homem está preso à vida e precisa viver
o homem tem fome
e precisa comer
o homem tem filhos
e precisa criá-los

Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las.


Ferreira Gullar

A vida bate



Não se trata do poema e sim do homem
e sua vida
- a mentida, a ferida, a consentida
vida já ganha e já perdida e ganha
outra vez.
Não se trata do poema e sim da fome
de vida,

o sôfrego pulsar entre constelações
e embrulhos, entre engulhos.

Alguns viajam, vão
a Nova York, a Santiago
do Chile. Outros ficam
mesmo na Rua da Alfândega, detrás
de balcões e de guichês.

Todos te buscam, facho
de vida, escuro e claro,

que é mais que a água na grama
que o banho no mar, que o beijo
na boca, mais
que a paixão na cama.
Todos te buscam e só alguns te acham. Alguns

te acham e te perdem.
Outros te acham e não te reconhecem
e há os que se perdem por te achar,

ó desatino
ó verdade, ó fome

de vida!

O amor é difícil
mas pode luzir em qualquer ponto da cidade.
E estamos na cidade
sob as nuvens e entre as águas azuis.

A cidade. Vista do alto
ela é fabril e imaginária, se entrega inteira

como se estivesse pronta.
Vista do alto,
com seus bairros e ruas e avenidas, a cidade
é o refúgio do homem, pertence a todos e a ninguém.

Mas vista
de perto,
revela o seu túrbido presente, sua
carnadura de pânico: as
pessoas que vão e vêm
que entram e saem, que passam
sem rir, sem falar, entre apitos e gases. Ah, o escuro

sangue urbano
movido a juros.
São pessoas que passam sem falar

e estão cheias de vozes
e ruínas . És Antônio?
És Francisco? És Mariana?
Onde escondeste o verde
clarão dos dias? Onde

escondeste a vida
que em teu olhar se apaga mal se acende?

E passamos
carregados de flores sufocadas.

Mas, dentro, no coração,
eu sei,
a vida bate. Subterraneamente,
a vida bate.


Em Caracas, no Harlem, em Nova Delhi,
sob as penas da lei,
em teu pulso,
a vida bate.
E é essa clandestina esperança
misturada ao sal do mar

que me sustenta
esta tarde
debruçado à janela de meu quarto em Ipanema

na América Latina.

Ferreira Gullar

Para quem ama, não será a ausência a mais certa, a mais eficaz, a mais intensa, a mais indestrutível, a mais fiel das presenças?

Marcel Proust

Como nascem as guerras?

Pâmella Passos

Como nascem as guerras? Essa é a pergunta que todo cidadão carioca, bombardeado nos últimos dias pela grande mídia deveria se fazer? Que a violência e o medo crescem, isso é fato, mas de onde eles vem?

Hoje, durante meu almoço, recorrentemente mal digerido devido as reportagens sensacionalistas de jornais como SBT-Rio, Balanço Geral (Record) e RJ TV, não pude terminar a refeição. Ela, a “Guerra contra o Tráfico” era anunciada em todos esses telejornais.

É verdade que infelizmente já assisti cenas mais chocantes nesses veículos de comunicação, como há algumas semanas a transmissão do desfecho de uma operação policial em que um atirador de elite da Polícia Militar, despedaça a cabeça de um bandido na Tijuca. No entanto, o que me fez parar de comer? O que me despertou dessa desumanização cotidiana na TV?

Não sei ao certo dizer, mas o fato é que o garfo caiu de minha mão quando um vídeo propagandeando o blindado Águia foi ao ar. A música, as cenas, as luzes...tudo, me lembrava as guerras do século XX. E como estas nasceram? Por que os homens daquela época aceitaram e lutaram nesta guerra que não era deles? Pensar sobre isso talvez nos ajude a decidir se acreditamos ou não nessa guerra.

O século XX foi marcado por duas grandes guerras mundiais, além da famigerada Guerra Fria e seus desdobramentos pelo mundo, como em nosso caso as ditaduras latino-americanas. No entanto, qual o motivo dessas guerras? Lembrando rapidamente das aulas de história na escola, reconhecemos a origem desses conflitos nas disputas imperialista, ou ainda, nas demandas do sistema capitalista.

Bom, para muitos esse é um discurso esquerdista e ultrapassado, no entanto poderíamos pensar. Quantos milhões de reais são movimentados pela economia do tráfico? Como a matéria prima das drogas, que não são produzidas nas favelas, chega lá? De que forma as armas importadas e de alta tecnologia entram no país e vão parar nas mãos dos traficantes, que disputam entre si o mercado das drogas?

Parece-me que nem o Caveirão nem o blindado Águia são capazes de responder a essas perguntas. No entanto, são eles que estão sendo arduamente defendidos pela política de segurança pública de nosso estado. Por que o grampo telefônico que captou a conversa de um traficante ensinando ao outro como usar uma arma, não captou também os nomes e endereços de seus fornecedores?

Após perder o apetite, resolvi reler alguns textos e acho que encontrei uma resposta plausível. Está no livro do O longo Século XX do doutor em Economia e professor de sociologia Giovanni Arrighi. Ao falar sobre o final da Segunda Guerra Mundial e a situação econômica do período ele diz:

Esse impasse acabou sendo resolvido pela invenção da Guerra Fria. O medo conseguiu o que os cálculos de custo-benefício não tinham como conseguir, nem haviam conseguindo. (p. 305)

A Guerra contra o tráfico movimenta a economia. O medo libera recursos públicos que poderiam ser investidos em saúde, educação, transportes para compra de Caveirões e Águias, e assim optamos por uma guerra que não é nossa, e sim do capital.

Em uma de minhas últimas aulas sobre a Primeira Guerra Mundial utilizei o seguinte fragmento de um soldado de trincheira:

“O odor fétido nos penetra a garganta a dentro ao chegarmos na nossa nova trincheira... Chove torrencialmente e nos protegemos com o que tem de lonas e tendas de campanha afiançadas nos muros da trincheira. Ao amanhecer do dia seguinte constatamos estarrecidos que nossas trincheiras estavam feitas sobre um montão de cadáveres...”

Este soldado dormiu sobre humanos mortos por uma guerra que não era deles. A cada dia que se passa nessa guerra propagandeada, mães, tias, sobrinhos, filhos, avós, amigos recolhem os corpos dos seus, e nos becos, ruas e vielas desta cidade ficam as marcas de uma opção pela morte.

Por isso, declaro: Esta Guerra não é minha! Desejo uma paz pela vida e por outra política de Segurança Pública.

domingo, 18 de outubro de 2009

Every day is exactly the same

I believe I can see the future
Cause I repeat the same routine
I think I used to have a purpose
But then again
That might have been a dream
I think I used to have a voice
Now I never make a sound
I just do what I've been told
I really don't want them to come around

Oh, no


Every day is exactly the same
Every day is exactly the same
There is no love here and there is no pain
Every day is exactly the same

I can feel their eyes are watching
In case I lose myself again
Sometimes I think I'm happy here
Sometimes, yet I still pretend
I can't remember how this got started
But I can tell you exactly how it will end


Every day is exactly the same
Every day is exactly the same
There is no love here and there is no pain
Every day is exactly the same

I'm writing on a little piece of paper
I'm hoping someday you might find
Well I'll hide it behind something
They won't look behind
I'm still inside here
A little bit comes bleeding through
I wish this could have been any other way
But I just don't know, I don't know what else I can do

sábado, 17 de outubro de 2009

Dentro de cada ser há um segredo
a que nem a paixão consegue acesso
inda que os lábios de amor se despedace.

Os anos e a amizade incapazes
são de obter a ventura calcinante,
quando a alma liberta é estrangeira
à lenta lassidão voluptuosa.

Os que procuram já são quase loucos.
Os que a alcançam, matam-os a tristeza ...
Agora tu entenderás por que
meu coração não pulsa nas suas mãos.

Anna Akhmátova
ps: quanto mais leio mas adoro esses poemas...